segunda-feira, 6 de junho de 2022
Insegurança alimentar e ação espírita - O que precisamos saber
Microrresistência à desigualdade e injustiça social e à violação dos direitos humanos
Por Alessandra Buarque de Araújo Silva[1]
Em 12.07.2021
Artigo publicado em matéria no jornal eletrônico DM Digital de Goiânia-GO em 16.07.2021.
O dia
amanhece...
Despertar e não mais encontrar
o ente querido fisicamente presente.
A rotina automatizou os seres.
O entardecer toma lugar nos corações humanos. A noite cai, o sono não chega; a
solidão se faz ausência e milhares choram seus mortos no Brasil da pandemia...
Essa passou a ser a dura
rotina de milhares de brasileiros e brasileiras no cenário pandêmico que teve
início, mais precisamente, em março de 2020, no Brasil. Estivemos na dianteira
dos países Europeus, da China, por, pelo menos, 90 dias, antes da pandemia
instalar-se em nosso país; mas, medidas sanitárias não foram adotadas em tempo
hábil, pelo governo brasileiro, quando os impactos da pior crise sanitária da
nossa história poderiam ter sido minimizados.
Ainda contamos
os mortos pela pandemia da covid-19, os amores de cada um. A pandemia
recrudesceu em 2021, quando pensamos que já havíamos passado pelo pior. E
assistimos, perplexos, que o orçamento previsto para as políticas de saúde em
2021[2] (R$
125,8 bilhões) retorna ao patamar pré-pandemia, com os valores próximos aos
registrados em 2019, quando não havia pandemia (R$ 122,2 bilhões). É
assustador. Apesar do aumento da necessidade de atendimento das pessoas, uma
consequência da alta do contágio em 2021, há uma previsão de queda de R$ 35
bilhões nas despesas em saúde. É como se a pandemia houvesse acabado, no
Brasil.
Pessoas não são
números, mas, no cenário do Brasil pandêmico, estão sendo tratadas, apenas,
como estatísticas e, nem assim, confiáveis; porque as subnotificações não nos
permitem conhecer a realidade das dores que se tornaram rotina. É nesse
contexto que emergem, às nossas vistas, com mais profundo pesar, as
desigualdades sociais, as injustiças, a fome, a pobreza, a miséria, o
desemprego estrutural, a ausência de teto e de pão... Nos deparamos, muito de
perto, com os invisíveis ao sistema. Cientes dessas condições subumanas, das
mazelas pelas quais passam o nosso povo, do sofrimento diário que a pandemia
veio agravar, precisamos voltar o nosso olhar para as microrresistências que nos
permitem acreditar em luzes no final do túnel, em locus de amparo e
conforto, lutas e debates, educação e cidadania e, sobretudo, oportunidades e
possibilidades de encontros para o progresso humano, a partir da vivência do
amor, em sua essência.
A ABREPAZ[3] é uma
dessas microrresistências e que nos representa nas lutas cotidianas. São
experiências que, juntadas a outras e mais outras, podem auxiliar-nos a
engrossar o coro da resistência ao desmonte dos direitos que nos fazem humanos,
nos garantem a vida e a dignidade, na perspectiva de uma cultura de paz e
não-violência.
Fundada em
10.12.2018, , na cidade de Goiânia-GO, quando é celebrado o Dia Mundial dos
Direitos Humanos, por um grupo de espíritas que, em seu exercício de cidadania,
reuniram-se para trabalhar os Direitos Humanos, a Cultura de Paz e a
Não-Violência, tanto no movimento espírita quanto na sociedade em geral. Surgiu
com a finalidade
de estudar, divulgar e promover os Direitos
Humanos, Cultura de Paz e Não-Violência alinhados ao Espiritismo, sob a
perspectiva de um conjunto de princípios estabelecidos e desenvolvidos a partir
da codificação de Allan Kardec; fundados nos princípios da democracia,
transparência, pluralismo de ideias, inclusividade, diversidade e
não-violência.
A
cultura de paz pede, preliminarmente, comida no prato, terra, teto e trabalho. A
comunicação não-violenta não pode prescindir de uma educação em direitos
humanos, libertadora, que promova a emancipação dos seres, em busca da
igualdade de condições de vida digna.
Essa
somos nós, a ABREPAZ e estamos convidando você a nos conhecer, estreitar laços
e formar parcerias em busca da transformação para uma nova sociedade, justa,
digna e fraterna.
[1] Voluntária da ABREPAZ em
Maceió-Alagoas, Brasil. Mestre em Políticas Sociais e Cidadania. Especialista
em Previdência Social.
[2] https://g1.globo.com/economia/noticia/2021/03/20/orcamento-da-saude-retorna-ao-patamar-pre-pandemia-estados-e-municipios-pedem-mais-recursos.ghtml
Insegurança alimentar e nutricional: o que precisamos saber para agir no mundo.
Por Alessandra Buarque de Araújo Silva[1]
Em 30.07.21
Publicado no Blog da ABREPAZ Associação
Brasileira Espírita pelos Direitos Humanos e Cultura de Paz.
Disponível em https://www.abrepaz.org/post/inseguranca-alimentar-e-nutricional-o-que-precisamos-saber-para-agir-no-mundo
Insegurança alimentar não é um tema
novo. Milhões de pessoas, no mundo, estão em situação de insegurança alimentar,
nutricional, extrema pobreza, miséria, vulnerabilidade social.
Mas, por que estamos pautando esse tema
com tanta recorrência, no Brasil, atualmente? Será que a experiência da
necropolítica[2] que
estamos vivendo no Brasil é a referência que nos mastiga e moi, nos lembrando
que a fome também é um projeto de morte? São mais de 125,6 milhões de pessoas[3]
que não se alimentaram como deveriam ou já tinham algum tipo de incerteza
quanto ao acesso à alimentação no futuro e, não é consequência da pandemia, tão
somente. A pandemia agravou um quadro que já era desumano e cruel.
O que é, então, essa insegurança alimentar e
nutricional que se faz presente em nosso cotidiano? Que conteúdo é esse que nós
precisamos acessar, a fim de que possamos contribuir para o enfrentamento dessa
calamidade, enquanto cidadãos do mundo? Os termos que a definem podem dar conta
de justificar essa condição subhumana em que vivem seres humanos iguais a nós,
impulsionando nossa indignação para alterar a práxis nossa de cada dia?
Acreditamos que a busca pelo esclarecimento e
conscientização acerca da realidade, ao confrontarmos os dados aqui trazidos, poderá
ser o primeiro passo para uma mudança de atitude tão urgente e imprescindível.
Problematizá-las é o que nos propomos no presente texto.
O termo segurança alimentar surgiu logo após a
1ª guerra mundial, quando se percebeu que a
superioridade dos países não dependia, exclusivamente, da sua capacidade
bélica, mas, também, a garantia da
autossuficiência alimentar da sua população. Tornou-se
um termo militar e foi intimamente associado à segurança nacional até a década
de 1970[4], porém, mesmo com a
recuperação da capacidade de produção agrícola dos países, que à época estavam
escassas, as mazelas da fome no mundo foram mantidas. O IBGE – Instituto
Brasileiro de Geografia Estatística, definiu insegurança alimentar, em gradação
de vulnerabilidade como leve, moderada e grave. Do grupo de domicílios
pesquisados[5],
que estavam em situação de insegurança alimentar, 31,7%
disse ter insegurança leve, 12,7% disse ter insegurança moderada e 15%
insegurança grave (quando existe falta de comida).
A insegurança alimentar afeta 1/3 da
população mundial. Segundo os dados da FAO/ONU, por volta de 690 milhões de
pessoas, no mundo, sofrem de fome crônica. A pandemia fez crescer esse número
em mais de 130 milhões de pessoas. Embora a África seja a região onde os níveis mais altos de
insegurança alimentar total são observados, é na América Latina e no Caribe que
a insegurança alimentar está aumentando mais rapidamente: cresceu de 22,9% em
2014 para 31,7% em 2019, devido a um aumento acentuado na América do Sul[6]. O relatório “Estado da
segurança alimentar e nutrição no mundo” adverte que a região não alcançará o
Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 2: fome zero e agricultura
sustentável[7]
“Durante as duas últimas décadas, o rápido crescimento
econômico e o desenvolvimento da agricultura foram responsáveis pela redução
pela metade da proporção de pessoas subnutridas no mundo. Entretanto, ainda há
795 milhões de pessoas no mundo que, em 2014, viviam sob o espectro da
desnutrição crônica. O ODS2 pretende acabar com todas as formas de fome e
má-nutrição até 2030, de modo a garantir que todas as pessoas – especialmente
as crianças – tenham acesso suficiente a alimentos nutritivos durante todos os
anos. Para alcançar esse objetivo, é necessário promover práticas agrícolas
sustentáveis, por meio do apoio à agricultura familiar, do acesso equitativo à
terra, à tecnologia e ao mercado.”
Importa lembrar que o ODS citado é oriundo
dos Objetivos do Desenvolvimento do Milênio (ODM - FAO/ONU), da Declaração do Milênio
de 2000[8], “erradicar a pobreza e a fome”, quando o
Brasil deixou de aparecer no mapa da fome com sua área pintada em cores
quentes, em 2014; ou seja, deixou de ter a fome como um problema estrutural,
conforme afirma o Instituto Fome Zero
"A conquista ocorreu após mais de uma
década de implementação, acompanhamento e aprimoramento de políticas públicas
de promoção do direito constitucional à alimentação, como os 20 programas
incluídos no programa guarda-chuva Fome Zero, utilizado posteriormente pela FAO
para promover a segurança alimentar em outros países."
Segundo a OXFAM Brasil, a segurança
alimentar é a garantia de todas as dimensões que inibem a ocorrência da fome - disponibilidade
e acesso permanente de alimentos, pleno consumo sob o ponto de vista
nutricional e sustentabilidade em
processos produtivos. Essa segurança está garantida quando a família tem acesso
regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem
comprometer o acesso a outras necessidades essenciais. Por isso, a insegurança
alimentar é consequência direta das mudanças
climáticas, degradação dos solos, escassez hídrica, poluição, explosão
demográfica, falhas de governança, crises sanitárias e socioeconômicas.
É preciso ressaltar que, no Brasil, a
segurança alimentar é um direito social garantido
pela Constituição Federal de 1988. A Emenda Constitucional
nº 64 de 04.02.2010, altera o artigo 6º da Constituição para introduzir a
alimentação como um direito social.
"Art. 6º. São direitos sociais
a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a
segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a
assistência aos desamparados, na forma desta Constituição." (NR)
Os dados do estudo “Efeitos da pandemia na alimentação e na situação da segurança alimentar no Brasil” realizado entre novembro e dezembro do ano de 2020, com duas mil pessoas[10], apontam que 59,4% dos domicílios entrevistados estavam em situação de insegurança alimentar durante a pandemia, e, em parte significativa deles foi reduzido o consumo de alimentos importantes para a dieta regular da população – 44% diminuíram o consumo de carne e 41% a ingestão de frutas. Importante também ressaltar que, no campo da dieta alimentar, é muito alto o custo de uma dieta saudável; além do alerta para o aumento da obesidade que constitui um grave problema de saúde, por aumentar o risco de doenças não transmissíveis tanto em crianças como em adultos.
O preço dos alimentos subiu cerca de 38%, dificultando o acesso das pessoas à alimentação. Um fator particularmente preocupante é que, entre todas as regiões do mundo, a América Latina e o Caribe têm o custo mais alto de compra para uma dieta que atenda às necessidades energéticas mínimas: US$ 1,06 ao dia por pessoa. Esse valor é 34% mais caro que a média global (dados da FAO/ONU).
Diante de todos os dados aqui apontados, ficamos a nos perguntar: o que podemos concluir desse relato? Que a fome é muito mais que uma questão de insegurança alimentar, é uma questão de humanidade, de dignidade humana, como afirma a professora Dra. Cecília Rocha[11], e que todas as ações voltadas ao combate à fome precisam ser realizadas nesta perspectiva. Vivemos em um sistema capitalista que não está alimentando as pessoas; em escala mundial. No Brasil, nos últimos anos, a situação vem piorando. Os resultados da FAO, para o Brasil, evidenciam que, em 2020, a insegurança alimentar e a fome retornaram aos patamares próximos a 2004. Os dados da pesquisa elaborada pela Rede Penssan[12] mostram que o Brasil retrocedeu 15 anos em cinco, voltando a ter a fome como um problema estrutural.
Outro conteúdo que precisamos nos apropriar ampliando a perspectiva de análise sobre segurança alimentar, é compreender o significado do termo “soberania alimentar”. Do que trata? A professora Ingrid Machado, integrante do Fórum de Economia Solidária da Baixada Santista, esclarece que a soberania alimentar aponta para a emancipação e autonomia dos povos para decidir sobre o que plantar e o que consumir, sem depender do que o mercado impõe para o plantio, produção e consumo. Ou seja, o direito dos povos de decidir sobre suas políticas agrícolas e alimentares, preservando os bancos de sementes, conservando suas espécies e costumes, entre outros.
“Para concretizar esse objetivo é preciso manter o controle sobre os
recursos naturais, em particular a terra, a água e as sementes, que são bens
públicos e por isso não devem ser privatizados.” (Centro de Intervenção para o
Desenvolvimento Amilcar Cabral CIDAC)
Se nada for feito, até o final de
2021, 11 (onze) pessoas podem morrer de fome por minuto, no mundo, revela o
relatório “O Vírus da Fome se Multiplica”[13].
O Brasil está entre os focos emergentes da
fome, junto com Índia e África do Sul[14]. Durante
a pandemia, o auxílio emergencial instituído pelo governo federal foi garantido
para 38 milhões de famílias em situação de vulnerabilidade, deixando dezenas de
milhões de pessoas sem uma renda mínima. O percentual
da população que vive na extrema pobreza quase triplicou desde o início da
pandemia, passando de 4,5% para 12,8%. No final de 2020, mais da metade da
população – 116 milhões de pessoas – enfrentava algum nível de insegurança
alimentar, das quais quase 20 milhões passavam fome[15].
Há muito a ser feito. Como sociedade civil,
podemos contribuir no esclarecimento das pessoas, socializando informações e
promovendo o conhecimento, agindo no sentido de encaminhar a elaboração de
políticas públicas nos diversos fóruns que se façam possíveis, ainda que no
Brasil de hoje, construir a resistência seja um desafio constante e diário.
REFERÊNCIAS:
ABREPAZ
Entrevista – Sustentabilidade, Economia Solidária, Feminismos e Segurança Alimentar.
Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=1d4tl2bctZA&ab_channel=Abrepaz. Acesso em 27.07.2021
MBEMBE, Achille. Necropolítica. Biopoder, soberania, estado de exceção, política da morte. Arte & Ensaios. Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Escola de Belas Artes da UFRJ. 8ª reimpressão. Impresso em São Paulo. Novembro, 2020.
https://www.cidac.pt/index.php/o-que-fazemos/comercio-e-desenvolvimento/soberania-alimentar/
[1] Mestra em Políticas Sociais e Cidadania.
Especialista em Gestão e Controle Social da Política Previdenciária.
[2] Termo cunhado por MBEMBE, Achille.
[3] www.brasildefato.com.br
[5]
Pesquisa coordenada pelo Grupo de Pesquisa Alimento para Justiça: Poder, Política e
Desigualdades Alimentares na Bioeconomia, da Freie Universität Berlin
(Alemanha), em parceria com pesquisadores da UFMG e da Universidade
de Brasília (UnB). Disponível em https://ufmg.br/comunicacao/eventos/palestra-aborda-efeitos-da-pandemia-na-alimentacao-e-na-situacao-da-seguranca-alimentar-no-brasil
[6] http://www.fao.org/brasil/noticias/detail-events/pt/c/1297922/
[7] A Agenda 2030 consiste em
uma Declaração, em um quadro de resultados - os 17 ODS e suas 169 metas - em
uma seção sobre meios de implementação e de parcerias globais, bem como de um
roteiro para acompanhamento e revisão. Os ODS são o núcleo da Agenda e deverão
ser alcançados até o ano 2030. http://www.agenda2030.org.br/sobre/
[8] A ONU modificou a abordagem e não
utiliza mais a ferramenta Mapa da Fome para comunicar os dados da fome no
mundo. https://www.brasildefato.com.br/2021/06/30/afinal-o-brasil-esta-ou-nao-no-mapa-da-fome-da-onu
[9] https://www.diariodocentrodomundo.com.br/essencial/com-fome-e-sem-renda-pessoas-se-alimentam-com-fragmentos-de-arroz-no-governo-bolsonaro/
[10] Disponível em https://ufmg.br/comunicacao/eventos/palestra-aborda-efeitos-da-pandemia-na-alimentacao-e-na-situacao-da-seguranca-alimentar-no-brasil
[11] Professora Dra. Maria Cecília Rocha. Diretora
do Centro para Estudos em Segurança Alimentar e Nutricional (Ryerson University,
Canadá)
[12] Dados da pesquisa “Inquérito Nacional
sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil”,
elaborada pela Rede Penssan.
https://www.brasildefato.com.br/2021/06/30/afinal-o-brasil-esta-ou-nao-no-mapa-da-fome-da-onu
[13] O relatório “O Vírus da Fome se Multiplica” trouxe conclusões alarmantes
sobre a epidemia de fome que se alastra pelo mundo. www.oxfam.org.br
domingo, 5 de junho de 2022
Abuso sexual contra crianças e adolescentes: a violência silenciosa
Alessandra
Buarque de Araújo Silva[1]
Asas de borboleta
“Era apenas uma menina que pensava que um dia criaria asas como a borboleta e voaria. Corria, pulava, sorria ... como sorria.
Acreditava que o mundo era só alegria acreditava que a maldade não existia.
Via em
cada gesto apenas simpatia. Olhares ruins, pessoas que ameaçavam a inocência
eram só fantasia.
Até que um dia descobriu, de uma só vez, que a dor e angústia eram mais que notícias de televisão e em sua vida tudo mudou.
O céu
mudara de cor, já não via mais o seu azul radiante, mas o cinza sem brilho e
calor.
A dor
da lembrança doía, o corpo doía. Pensava se aquilo seria mentira, mas a verdade
lhe dizia: - Aconteceu...
A sensação
de estar suja lhe acompanhava noite e dia.:
Ele
não deveria...Invadir assim a sua inocência... Como um simples brinquedo. Ousar
fazer da menina uma boneca dilacerada.
Não
conseguia mais sorrir ou cantar. Toda a sua alegria transformada em tristeza
profunda. Lembrava das frases:
- Não
conte, não conte. Este é o nosso segredinho. Se você contar eu negarei e não
acreditarão em você. Muitas coisas ruins vão acontecer.
Passou a andar cabisbaixa, se isolava; se alguém lhe abordava saia. Não se entrosava e sofria. A dor machucava e ela sozinha.
Muitos
perguntavam o que havia, mas ela mesma não entendia, apenas lembrava e sofria.
Não
dormia, sonhava com os momentos passados. Acordava em prantos e ninguém
entendia. Tinha medo, muito medo.
Recordava aquelas mãos invadindo mais que seu corpo, o seu eu. Afeto e raiva se misturavam. Já não sabia o que sentir por alguém que um dia amou e fora capaz de violentar sua alma.
Quando estava só pensava, pensava... Lembrava. Um dia contou, mas não acreditaram; essa dor foi mais forte, quase sucumbiu. Não vivia, sobrevivia.
À escola ia sem ver o que se passava, como alguém cuja vida escapava pelas lembranças e pela dor.
Um dia,
porém, alguém a viu, não com os olhos que se vê todos os dias, mas com os olhos
de quem enxerga além. Quem lhe enxergou também acreditou na força do abraço e
abraçou.
Aquele
abraço tocou fundo e ela falou. Dessa vez foi diferente, a verdade apareceu.
Ela que pensava que estava sozinha descobriu que há outros marcados pelo
sofrimento como o seu, todos com a marca da dor.
Ela descobre
ainda que as marcas ficam, mas, a vida, ah! A vida pode recomeçar. Poderia até
abrir as asas da esperança e reaprender a voar.”
*Valéria
Amâncio.
O
texto acima, escrito pela Psicóloga e Pedagoga Valéria Amâncio nos remete ao maio laranja e a importância de falar sobre o tema “Abuso sexual
contra crianças e adolescentes: a violência silenciosa”. Tema que, inclusive, a
Psicóloga Valéria Amâncio abordou em live realizada no dia 25.05 deste
ano como convidada do Fórum de Mulheres Espíritas do IFEHP - Instituto de
Filosofia Espírita Herculano Pires, vídeo disponível no canal do youtube
do IFEHP.
O
dia 18 de maio de 1973 marcou para sempre a vida da família da menina Araceli.
Ela tinha 08 anos quando foi raptada, drogada, estuprada, carbonizada e morta,
em Vitória do Espírito Santo. Araceli poderia ser a menina do texto de Valéria
Amâncio que pensava que um dia criaria asas como a borboleta e voaria. Araceli
se foi, vítima de um crime brutal e o dia 18 de maio foi instituído como o dia
Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes.
Quantas
crianças e jovens sofreram e sofrem abusos e exploração sexual em nosso país? A
violência sexual é um crime que acontece prioritariamente na infância e no
início da adolescência. No período entre 2017 e 2020 foram registrados 179.277
casos de estupro ou estupro de vulnerável com vítimas de até 19 anos – uma
média de quase 45 mil casos por ano. Crianças de até 10 anos representam 62 mil
das vítimas nesses quatro anos – ou seja, um terço do total. A grande maioria
das vítimas de violência sexual é menina – quase 80%. Para elas, um número
muito alto de casos envolve vítimas entre 10 e 14 anos de idade, sendo 13 anos
a idade mais frequente. Para os meninos, o crime se concentra na infância,
especialmente entre 3 e 9 anos de idade. A maioria dos casos de violência
sexual contra meninas e meninos ocorre na residência da vítima e, para os casos
em que há informações sobre a autoria dos crimes, 86% dos autores eram
conhecidos. Os dados são do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) em
relatório de 2021.
As
estatísticas apontam os números de crianças e adolescentes abusados,
violentados de forma silenciosa. Mas, pessoas não são números, são seres que
sofrem as dores do abuso e da violência, na grande maioria das vezes realizada
no âmbito da família e por pessoas de sua relação de afeto e confiança. A dor
dessas crianças e adolescentes só não é maior que a dor do descrédito que faz
com que muitas das pessoas sobreviventes venham a sucumbir. A dor de uma voz,
quando consegue sair da boca, não ser ouvida e respeitada.
As
vozes que repetem “Quem ensina
sobre sexo é papai e mamãe”. “Falar sobre questão de gênero é doutrinação.” Essas
trazem um mal maior.
Frases
como estas tem se disseminado nas redes sociais, mas, não encontram respaldos
em estudos e pesquisas e jogam contra o combate à exploração sexual infantil,
aponta o Relatório elaborado pela Revista Britânica The Economist com apoio da
Fundação World Childhood: a discussão sobre sexualidade e gênero aumenta a
capacidade de um país de proteger suas crianças.
O
Brasil vinha avançando, mesmo que devagar, e a maioria dos pais concordava com
a educação sexual nas escolas, mas agora com essa desinformação sobre os
Programas parece que a coisa estagnou, diz a psicóloga e doutora em educação
Neide Figueiró que trabalha com formação em educação sexual para professores.
Discursos sem fundamentos incutem nos pais o medo de que a escola incentivaria
crianças a fazer sexo, faria apologia da homossexualidade ou pregaria valores
contra princípios religiosos de algumas famílias. Mesmo assim a maioria dos
brasileiros ainda é a favor da educação sexual nas escolas, apoiada por 54% da
população segundo pesquisa do Datafolha de dezembro 2018.
O
retrocesso diminui as chances de a escola identificar casos de abuso e
exploração. Se o tema deixa de ser tratado nas escolas, há redução da percepção
dos professores sobre o que está acontecendo. Os discursos enviesados afetam
também os professores que ficam com medo de tratar do assunto, segundo a
especialista Figueiró.
Nós precisamos conhecer quais os tipos de violência
silenciosa que sofrem as crianças e adolescentes. De que maneira o abuso
acontece e quem são os possíveis abusadores ou abusadoras. Estão próximos? Há
um perfil dessas pessoas?
Como
identificar se a criança ou adolescente está sendo vítima de abuso? Elas podem
mentir em caso de abuso? Por que a criança e adolescente não fala ou pede ajuda
quando está sendo vítima de abuso?
O que
fazer em caso de desconfiar que uma criança ou adolescente está sofrendo abuso?
Existem Redes de apoio para essas crianças e adolescentes?
É
preciso pautar esse debate, nos meios espíritas e na sociedade em geral.
Despertar a força coletiva no sentido de causar um desconforto social, para,
assim, fomentar a elaboração de políticas públicas eficazes de prevenção. É
preciso preparar pessoas para agir diante deste cenário cruel, criminoso,
sombrio: famílias, escolas, grupos sociais diversos.
Educação
sexual, conhecer o corpo, as descobertas, os sentimentos e sensações, preparar
as crianças e adolescentes para a auto-defesa.
Estatísticas
mostram que crianças que passaram por programas de educação sexual formal e
planejada têm seis vezes mais ferramentas de proteção contra abuso e exploração
sexual, afirma Caroline Arcari, mestre em Educação Sexual e autora do livro
Pipo e Fifi sobre prevenção de violência sexual destinado às crianças a partir
dos 4 anos. Segundo ela, alguns grupos argumentam que a educação sexual poderia
erotizar precocemente a criança. Há uma confusão sobre o que ela trata: é
aprender sobre o corpo, sobre os seus sentimentos, sobre o mundo, sobre limites
e seus direitos, diz ela.
Ah, as estatísticas. Elas teimam em nos enquadrar em um padrão de
ocorrência que não somos, entretanto, são subsídios para as leituras das
pesquisas e estudos produzidos que auxiliam a guiar a construção de políticas
públicas e redes de apoio, e, principalmente, o enfrentamento às violências
cometidas. A partir do conhecimento do cenário que as estatísticas nos apontam
ações como as de 18MAIO último ganham força e mais pessoas se somam a essa
luta: ativistas de todo o país convocaram grito coletivo para dar basta à
violência sexual contra crianças. São participantes da passeata virtual
#AgoraVcSabe, Movimento encabeçado pelo Instituto Liberta, presidido por Luciana
Temer. O Movimento tem como missão, por um fim ao silêncio sobre violência
sexual contra crianças e adolescentes no país, diz ela.
São muitas as denúncias que surgem quase que diariamente e quem
denuncia termina sendo uma referência, um apoio e um incentivo para que mais
crianças e adolescentes falem, rompam o silêncio, como a menina do texto de
Valéria Amâncio, que, pensando que estava sozinha
descobriu que há outros marcados pelo sofrimento como o seu, todos com a marca
da dor.
Descobriu ainda que as marcas ficam, mas, a vida pode recomeçar.
“Poderia até abrir as asas da esperança e reaprender a voar...”
Que sejamos cada uma e cada um de nós o abraço que acolhe, o ouvido
que escuta e a voz que brada em coro: BASTA! Chega do abuso que mata
lentamente...
Neste contexto, o Fórum de Mulheres Espíritas do IFEHP soma-se a
tantos outros ativistas, Coletivos, grupos sociais, famílias, educadores,
imbuídos da responsabilidade de pautar esse tema, promovendo todos os diálogos
e ações necessárias ao enfrentamento dessa violência.
Nunca será demais pautar o tema do abuso sexual e
dialogar com as pessoas sobre essa violência silenciosa que nos atinge. É uma
questão de interesse público. É uma responsabilidade coletiva.
Precisamos dar um BASTA a essa violência
silenciosa!
FONTE:
AMÂNCIO, Valéria. Meu Corpo, Minhas Descobertas. 2012. Editora cassara.
[1]
Integrante do Fórum de Mulheres Espíritas do IFEHP
– Instituto de Filosofia Espírita Herculano Pires. @forummulheresifehp
@ifehpherculanopires
Onde fica a certeza de que nos perdemos uns dos outros?
Publicado no Blog Repórter Nordeste. Disponível em https://reporternordeste.com.br/onde-fica-a-certeza-de-que-nos-perdemos-uns-dos-outros...
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Por Alessandra Buarque de Araújo Silva [1] Em 12.07.2021 Artigo publicado em matéria no jornal eletrônico DM Digital de Goiânia-GO em 16...

