segunda-feira, 6 de junho de 2022

6º Café Paralaxe - Livre Pensamento Espírita

I Semana O Filósofo e o Tempo - Conferência de Abertura " A filosofia social espírita de Herculano Pires - com Sérgio Aleixo e mediação de Alessandra Buarque

I Semana O Filósofo e o Tempo: a filosofia progressista de Herculano Pires - Mesa de Abertura

MAIO LARANJA 2022 - Abuso sexual contra crianças e adolescentes: a violência silenciosa

III Fórum de Mulheres Espíritas do IFEHP - Lançamento do livro "Caminhos da Eterna Flama" de Ana Claudia Laurindo

6º Fórum de Mulheres Espíritas - O debate contemporâneo sobre equidade e igualdade de gênero na perspectiva espírita

Lançamento do Movimento de Sensibilização sobre abuso sexual nos meios espiritualistas

Palestra Pública Virtual: As Leis Morais e a Ação Espírita

MOVMMESP Movimento Mundial de Mulheres Espíritas pelos Direitos Humanos - Sororidade: atitudes que podem mudar uma vida

I Semana Amélie Boudet - Mesa 1 - Os lugares da mulher no Espiritismo e na sociedade

I Semana Amélie Boudet - Conferência de encerramento - Existe uma espiritualidade negada à mulher?

O espírita e o bem comum

Especial de Aniversário Abrepaz - Coletivos Espiritas

3º Café Paralaxe - Agosto Lilás - Não há progresso sem combate à violência contra a mulher

I Semana Amélie Boudet - Mesa 4 - Movimentos de mulheres espíritas para ...

Uma Visão Progressista da Promoção Social

O Espiritismo não é apolítico

A Ação Feminina nos Coletivos Espíritas Progressistas

Espiritismo e Direitos Sociais - Proteção social em tempos de pandemia: precisamos falar sobre isso

Insegurança alimentar e ação espírita - O que precisamos saber

Microrresistência à desigualdade e injustiça social e à violação dos direitos humanos


Por Alessandra Buarque de Araújo Silva[1]

Em 12.07.2021

Artigo publicado em matéria no jornal eletrônico DM Digital de Goiânia-GO em 16.07.2021.

 

          O dia amanhece...

Despertar e não mais encontrar o ente querido fisicamente presente.

A rotina automatizou os seres. O entardecer toma lugar nos corações humanos. A noite cai, o sono não chega; a solidão se faz ausência e milhares choram seus mortos no Brasil da pandemia...

Essa passou a ser a dura rotina de milhares de brasileiros e brasileiras no cenário pandêmico que teve início, mais precisamente, em março de 2020, no Brasil. Estivemos na dianteira dos países Europeus, da China, por, pelo menos, 90 dias, antes da pandemia instalar-se em nosso país; mas, medidas sanitárias não foram adotadas em tempo hábil, pelo governo brasileiro, quando os impactos da pior crise sanitária da nossa história poderiam ter sido minimizados.

Ainda contamos os mortos pela pandemia da covid-19, os amores de cada um. A pandemia recrudesceu em 2021, quando pensamos que já havíamos passado pelo pior. E assistimos, perplexos, que o orçamento previsto para as políticas de saúde em 2021[2] (R$ 125,8 bilhões) retorna ao patamar pré-pandemia, com os valores próximos aos registrados em 2019, quando não havia pandemia (R$ 122,2 bilhões). É assustador. Apesar do aumento da necessidade de atendimento das pessoas, uma consequência da alta do contágio em 2021, há uma previsão de queda de R$ 35 bilhões nas despesas em saúde. É como se a pandemia houvesse acabado, no Brasil.

Pessoas não são números, mas, no cenário do Brasil pandêmico, estão sendo tratadas, apenas, como estatísticas e, nem assim, confiáveis; porque as subnotificações não nos permitem conhecer a realidade das dores que se tornaram rotina. É nesse contexto que emergem, às nossas vistas, com mais profundo pesar, as desigualdades sociais, as injustiças, a fome, a pobreza, a miséria, o desemprego estrutural, a ausência de teto e de pão... Nos deparamos, muito de perto, com os invisíveis ao sistema. Cientes dessas condições subumanas, das mazelas pelas quais passam o nosso povo, do sofrimento diário que a pandemia veio agravar, precisamos voltar o nosso olhar para as microrresistências que nos permitem acreditar em luzes no final do túnel, em locus de amparo e conforto, lutas e debates, educação e cidadania e, sobretudo, oportunidades e possibilidades de encontros para o progresso humano, a partir da vivência do amor, em sua essência.

A ABREPAZ[3] é uma dessas microrresistências e que nos representa nas lutas cotidianas. São experiências que, juntadas a outras e mais outras, podem auxiliar-nos a engrossar o coro da resistência ao desmonte dos direitos que nos fazem humanos, nos garantem a vida e a dignidade, na perspectiva de uma cultura de paz e não-violência.

Fundada em 10.12.2018, , na cidade de Goiânia-GO, quando é celebrado o Dia Mundial dos Direitos Humanos, por um grupo de espíritas que, em seu exercício de cidadania, reuniram-se para trabalhar os Direitos Humanos, a Cultura de Paz e a Não-Violência, tanto no movimento espírita quanto na sociedade em geral. Surgiu com a finalidade de estudar, divulgar e promover os Direitos Humanos, Cultura de Paz e Não-Violência alinhados ao Espiritismo, sob a perspectiva de um conjunto de princípios estabelecidos e desenvolvidos a partir da codificação de Allan Kardec; fundados nos princípios da democracia, transparência, pluralismo de ideias, inclusividade, diversidade e não-violência.

            A cultura de paz pede, preliminarmente, comida no prato, terra, teto e trabalho. A comunicação não-violenta não pode prescindir de uma educação em direitos humanos, libertadora, que promova a emancipação dos seres, em busca da igualdade de condições de vida digna.

            Essa somos nós, a ABREPAZ e estamos convidando você a nos conhecer, estreitar laços e formar parcerias em busca da transformação para uma nova sociedade, justa, digna e fraterna.       



[1] Voluntária da ABREPAZ em Maceió-Alagoas, Brasil. Mestre em Políticas Sociais e Cidadania. Especialista em Previdência Social.

[2] https://g1.globo.com/economia/noticia/2021/03/20/orcamento-da-saude-retorna-ao-patamar-pre-pandemia-estados-e-municipios-pedem-mais-recursos.ghtml

 [3] No blog no site www.abrepaz.org você pode encontrar mais informações sobre a Associação, sua carta de fundação, eventos, artigos, voluntariado, inclusive o acesso para tornar-se um associado ABREPAZ.

 

 


Insegurança alimentar e nutricional: o que precisamos saber para agir no mundo.

Por Alessandra Buarque de Araújo Silva[1]

Em 30.07.21




 

Publicado no Blog da ABREPAZ Associação Brasileira Espírita pelos Direitos Humanos e Cultura de Paz.

Disponível em https://www.abrepaz.org/post/inseguranca-alimentar-e-nutricional-o-que-precisamos-saber-para-agir-no-mundo

 

 

Insegurança alimentar não é um tema novo. Milhões de pessoas, no mundo, estão em situação de insegurança alimentar, nutricional, extrema pobreza, miséria, vulnerabilidade social.

 

Mas, por que estamos pautando esse tema com tanta recorrência, no Brasil, atualmente? Será que a experiência da necropolítica[2] que estamos vivendo no Brasil é a referência que nos mastiga e moi, nos lembrando que a fome também é um projeto de morte? São mais de 125,6 milhões de pessoas[3] que não se alimentaram como deveriam ou já tinham algum tipo de incerteza quanto ao acesso à alimentação no futuro e, não é consequência da pandemia, tão somente. A pandemia agravou um quadro que já era desumano e cruel.

 

O que é, então, essa insegurança alimentar e nutricional que se faz presente em nosso cotidiano? Que conteúdo é esse que nós precisamos acessar, a fim de que possamos contribuir para o enfrentamento dessa calamidade, enquanto cidadãos do mundo? Os termos que a definem podem dar conta de justificar essa condição subhumana em que vivem seres humanos iguais a nós, impulsionando nossa indignação para alterar a práxis nossa de cada dia?

Acreditamos que a busca pelo esclarecimento e conscientização acerca da realidade, ao confrontarmos os dados aqui trazidos, poderá ser o primeiro passo para uma mudança de atitude tão urgente e imprescindível. Problematizá-las é o que nos propomos no presente texto.

O termo segurança alimentar surgiu logo após a 1ª guerra mundial, quando se percebeu que a superioridade dos países não dependia, exclusivamente, da sua capacidade bélica, mas, também, a garantia da autossuficiência alimentar da sua população. Tornou-se um termo militar e foi intimamente associado à segurança nacional até a década de 1970[4], porém, mesmo com a recuperação da capacidade de produção agrícola dos países, que à época estavam escassas, as mazelas da fome no mundo foram mantidas. O IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia Estatística, definiu insegurança alimentar, em gradação de vulnerabilidade como leve, moderada e grave. Do grupo de domicílios pesquisados[5], que estavam em situação de insegurança alimentar, 31,7% disse ter insegurança leve, 12,7% disse ter insegurança moderada e 15% insegurança grave (quando existe falta de comida).

A insegurança alimentar afeta 1/3 da população mundial. Segundo os dados da FAO/ONU, por volta de 690 milhões de pessoas, no mundo, sofrem de fome crônica. A pandemia fez crescer esse número em mais de 130 milhões de pessoas. Embora a África seja a região onde os níveis mais altos de insegurança alimentar total são observados, é na América Latina e no Caribe que a insegurança alimentar está aumentando mais rapidamente: cresceu de 22,9% em 2014 para 31,7% em 2019, devido a um aumento acentuado na América do Sul[6]. O relatório “Estado da segurança alimentar e nutrição no mundo” adverte que a região não alcançará o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 2: fome zero e agricultura sustentável[7]

 

“Durante as duas últimas décadas, o rápido crescimento econômico e o desenvolvimento da agricultura foram responsáveis pela redução pela metade da proporção de pessoas subnutridas no mundo. Entretanto, ainda há 795 milhões de pessoas no mundo que, em 2014, viviam sob o espectro da desnutrição crônica. O ODS2 pretende acabar com todas as formas de fome e má-nutrição até 2030, de modo a garantir que todas as pessoas – especialmente as crianças – tenham acesso suficiente a alimentos nutritivos durante todos os anos. Para alcançar esse objetivo, é necessário promover práticas agrícolas sustentáveis, por meio do apoio à agricultura familiar, do acesso equitativo à terra, à tecnologia e ao mercado.”

 

Importa lembrar que o ODS citado é oriundo dos Objetivos do Desenvolvimento do Milênio (ODM - FAO/ONU), da Declaração do Milênio de 2000[8], “erradicar a pobreza e a fome”, quando o Brasil deixou de aparecer no mapa da fome com sua área pintada em cores quentes, em 2014; ou seja, deixou de ter a fome como um problema estrutural, conforme afirma o Instituto Fome Zero

 

"A conquista ocorreu após mais de uma década de implementação, acompanhamento e aprimoramento de políticas públicas de promoção do direito constitucional à alimentação, como os 20 programas incluídos no programa guarda-chuva Fome Zero, utilizado posteriormente pela FAO para promover a segurança alimentar em outros países."

           

Segundo a OXFAM Brasil, a segurança alimentar é a garantia de todas as dimensões que inibem a ocorrência da fome - disponibilidade e acesso permanente de alimentos, pleno consumo sob o ponto de vista nutricional e sustentabilidade em processos produtivos. Essa segurança está garantida quando a família tem acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais. Por isso, a insegurança alimentar é consequência direta das mudanças climáticas, degradação dos solos, escassez hídrica, poluição, explosão demográfica, falhas de governança, crises sanitárias e socioeconômicas.

É preciso ressaltar que, no Brasil, a segurança alimentar é um direito social garantido pela Constituição Federal de 1988. A Emenda Constitucional nº 64 de 04.02.2010, altera o artigo 6º da Constituição para introduzir a alimentação como um direito social.

 

"Art. 6º. São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição." (NR)

           

O acesso aos alimentos, no Brasil, é um direito constitucional. É o terceiro país do mundo em produção alimentar. O que produz alimenta 10% da população do globo, cerca de 800 milhões de pessoas; porém, ver pessoas fazendo fila em açougue para conseguir doações de ossos de boi para comer – na cidade de Cuiabá, Mato Grosso, a capital do agronegócio, não nos convence disso. Ler notícias de pacotes de fragmentos de arroz dispostos nas prateleiras dos supermercados, para alimentar seres humanos que podem pagar por àqueles fragmentos que tem valor nutricional reduzido e que era usado para compor rações de animais[9], também não nos convence da garantia desse direito, pelo Estado. O Brasil é o terceiro país no ranking de produção de alimentos, mas, metade de seu povo não sabe se irá comer amanhã.
Os dados do estudo “Efeitos da pandemia na alimentação e na situação da segurança alimentar no Brasil” realizado entre novembro e dezembro do ano de 2020, com duas mil pessoas[10], apontam que 59,4% dos domicílios entrevistados estavam em situação de insegurança alimentar durante a pandemia, e, em parte significativa deles foi reduzido o consumo de alimentos importantes para a dieta regular da população – 44% diminuíram o consumo de carne e 41% a ingestão de frutas. Importante também ressaltar que, no campo da dieta alimentar, é muito alto o custo de uma dieta saudável; além do alerta para o aumento da obesidade que constitui um grave problema de saúde, por aumentar o risco de doenças não transmissíveis tanto em crianças como em adultos.
O preço dos alimentos subiu cerca de 38%, dificultando o acesso das pessoas à alimentação. Um fator particularmente preocupante é que, entre todas as regiões do mundo, a América Latina e o Caribe têm o custo mais alto de compra para uma dieta que atenda às necessidades energéticas mínimas: US$ 1,06 ao dia por pessoa. Esse valor é 34% mais caro que a média global (dados da FAO/ONU).
Diante de todos os dados aqui apontados, ficamos a nos perguntar: o que podemos concluir desse relato? Que a fome é muito mais que uma questão de insegurança alimentar, é uma questão de humanidade, de dignidade humana, como afirma a professora Dra. Cecília Rocha[11], e que todas as ações voltadas ao combate à fome precisam ser realizadas nesta perspectiva. Vivemos em um sistema capitalista que não está alimentando as pessoas; em escala mundial. No Brasil, nos últimos anos, a situação vem piorando. Os resultados da FAO, para o Brasil, evidenciam que, em 2020, a insegurança alimentar e a fome retornaram aos patamares próximos a 2004. Os dados da pesquisa elaborada pela Rede Penssan[12] mostram que o Brasil retrocedeu 15 anos em cinco, voltando a ter a fome como um problema estrutural.
Outro conteúdo que precisamos nos apropriar ampliando a perspectiva de análise sobre segurança alimentar, é compreender o significado do termo “soberania alimentar”. Do que trata?  A professora Ingrid Machado, integrante do Fórum de Economia Solidária da Baixada Santista, esclarece que a soberania alimentar aponta para a emancipação e autonomia dos povos para decidir sobre o que plantar e o que consumir, sem depender do que o mercado impõe para o plantio, produção e consumo. Ou seja, o direito dos povos de decidir sobre suas políticas agrícolas e alimentares, preservando os bancos de sementes, conservando suas espécies e costumes, entre outros.

 

“Para concretizar esse objetivo é preciso manter o controle sobre os recursos naturais, em particular a terra, a água e as sementes, que são bens públicos e por isso não devem ser privatizados.” (Centro de Intervenção para o Desenvolvimento Amilcar Cabral CIDAC)

 

Se nada for feito, até o final de 2021, 11 (onze) pessoas podem morrer de fome por minuto, no mundo, revela o relatório “O Vírus da Fome se Multiplica”[13].

O Brasil está entre os focos emergentes da fome, junto com Índia e África do Sul[14]. Durante a pandemia, o auxílio emergencial instituído pelo governo federal foi garantido para 38 milhões de famílias em situação de vulnerabilidade, deixando dezenas de milhões de pessoas sem uma renda mínima. O percentual da população que vive na extrema pobreza quase triplicou desde o início da pandemia, passando de 4,5% para 12,8%. No final de 2020, mais da metade da população – 116 milhões de pessoas – enfrentava algum nível de insegurança alimentar, das quais quase 20 milhões passavam fome[15].

Há muito a ser feito. Como sociedade civil, podemos contribuir no esclarecimento das pessoas, socializando informações e promovendo o conhecimento, agindo no sentido de encaminhar a elaboração de políticas públicas nos diversos fóruns que se façam possíveis, ainda que no Brasil de hoje, construir a resistência seja um desafio constante e diário.

 

REFERÊNCIAS:

ABREPAZ Entrevista – Sustentabilidade, Economia Solidária, Feminismos e Segurança Alimentar. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=1d4tl2bctZA&ab_channel=Abrepaz. Acesso em 27.07.2021

MBEMBE, Achille. Necropolítica. Biopoder, soberania, estado de exceção, política da morte. Arte & Ensaios. Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Escola de Belas Artes da UFRJ. 8ª reimpressão. Impresso em São Paulo. Novembro, 2020.

https://www.cidac.pt/index.php/o-que-fazemos/comercio-e-desenvolvimento/soberania-alimentar/

  



[1] Mestra em Políticas Sociais e Cidadania. Especialista em Gestão e Controle Social da Política Previdenciária.

[2] Termo cunhado por MBEMBE, Achille.

[3] www.brasildefato.com.br

[5] Pesquisa coordenada pelo Grupo de Pesquisa Alimento para Justiça: Poder, Política e Desigualdades Alimentares na Bioeconomia, da Freie Universität Berlin (Alemanha), em parceria com pesquisadores da UFMG e da Universidade de Brasília (UnB). Disponível em https://ufmg.br/comunicacao/eventos/palestra-aborda-efeitos-da-pandemia-na-alimentacao-e-na-situacao-da-seguranca-alimentar-no-brasil

[6] http://www.fao.org/brasil/noticias/detail-events/pt/c/1297922/

[7] A Agenda 2030 consiste em uma Declaração, em um quadro de resultados - os 17 ODS e suas 169 metas - em uma seção sobre meios de implementação e de parcerias globais, bem como de um roteiro para acompanhamento e revisão. Os ODS são o núcleo da Agenda e deverão ser alcançados até o ano 2030. http://www.agenda2030.org.br/sobre/

[8] A ONU modificou a abordagem e não utiliza mais a ferramenta Mapa da Fome para comunicar os dados da fome no mundo. https://www.brasildefato.com.br/2021/06/30/afinal-o-brasil-esta-ou-nao-no-mapa-da-fome-da-onu

[11] Professora Dra. Maria Cecília Rocha. Diretora do Centro para Estudos em Segurança Alimentar e Nutricional (Ryerson University, Canadá)

[12] Dados da pesquisa “Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil”, elaborada pela Rede Penssan. https://www.brasildefato.com.br/2021/06/30/afinal-o-brasil-esta-ou-nao-no-mapa-da-fome-da-onu

[13] O relatório “O Vírus da Fome se Multiplica” trouxe conclusões alarmantes sobre a epidemia de fome que se alastra pelo mundo. www.oxfam.org.br

domingo, 5 de junho de 2022

Abuso sexual contra crianças e adolescentes: a violência silenciosa


 


Alessandra Buarque de Araújo Silva[1]


Asas de borboleta

 Era apenas uma menina que pensava que um dia criaria asas como a borboleta e voaria. Corria, pulava, sorria ... como sorria.

Acreditava que o mundo era só alegria acreditava que a maldade não existia.

Via em cada gesto apenas simpatia. Olhares ruins, pessoas que ameaçavam a inocência eram só fantasia.

Até que um dia descobriu, de uma só vez, que a dor e angústia eram mais que notícias de televisão e em sua vida tudo mudou.

O céu mudara de cor, já não via mais o seu azul radiante, mas o cinza sem brilho e calor.
A dor da lembrança doía, o corpo doía. Pensava se aquilo seria mentira, mas a verdade lhe dizia: - Aconteceu...

A sensação de estar suja lhe acompanhava noite e dia.:
Ele não deveria...Invadir assim a sua inocência... Como um simples brinquedo. Ousar fazer da menina uma boneca dilacerada.

Não conseguia mais sorrir ou cantar. Toda a sua alegria transformada em tristeza profunda. Lembrava das frases: 
- Não conte, não conte. Este é o nosso segredinho. Se você contar eu negarei e não acreditarão em você. Muitas coisas ruins vão acontecer.

Passou a andar cabisbaixa, se isolava; se alguém lhe abordava saia. Não se entrosava e sofria. A dor machucava e ela sozinha.

Muitos perguntavam o que havia, mas ela mesma não entendia, apenas lembrava e sofria.
Não dormia, sonhava com os momentos passados. Acordava em prantos e ninguém entendia. Tinha medo, muito medo.

Recordava aquelas mãos invadindo mais que seu corpo, o seu eu. Afeto e raiva se misturavam. Já não sabia o que sentir por alguém que um dia amou e fora capaz de violentar sua alma.

Quando estava só pensava, pensava... Lembrava. Um dia contou, mas não acreditaram; essa dor foi mais forte, quase sucumbiu. Não vivia, sobrevivia.

À escola ia sem ver o que se passava, como alguém cuja vida escapava pelas lembranças e pela dor.

Um dia, porém, alguém a viu, não com os olhos que se vê todos os dias, mas com os olhos de quem enxerga além. Quem lhe enxergou também acreditou na força do abraço e abraçou.

Aquele abraço tocou fundo e ela falou. Dessa vez foi diferente, a verdade apareceu. Ela que pensava que estava sozinha descobriu que há outros marcados pelo sofrimento como o seu, todos com a marca da dor.
Ela descobre ainda que as marcas ficam, mas, a vida, ah! A vida pode recomeçar. Poderia até abrir as asas da esperança e reaprender a voar.”

*Valéria Amâncio.

O texto acima, escrito pela Psicóloga e Pedagoga Valéria Amâncio nos remete ao maio laranja e a importância de falar sobre o tema “Abuso sexual contra crianças e adolescentes: a violência silenciosa”. Tema que, inclusive, a Psicóloga Valéria Amâncio abordou em live realizada no dia 25.05 deste ano como convidada do Fórum de Mulheres Espíritas do IFEHP - Instituto de Filosofia Espírita Herculano Pires, vídeo disponível no canal do youtube do IFEHP.

O dia 18 de maio de 1973 marcou para sempre a vida da família da menina Araceli. Ela tinha 08 anos quando foi raptada, drogada, estuprada, carbonizada e morta, em Vitória do Espírito Santo. Araceli poderia ser a menina do texto de Valéria Amâncio que pensava que um dia criaria asas como a borboleta e voaria. Araceli se foi, vítima de um crime brutal e o dia 18 de maio foi instituído como o dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes.

Quantas crianças e jovens sofreram e sofrem abusos e exploração sexual em nosso país? A violência sexual é um crime que acontece prioritariamente na infância e no início da adolescência. No período entre 2017 e 2020 foram registrados 179.277 casos de estupro ou estupro de vulnerável com vítimas de até 19 anos – uma média de quase 45 mil casos por ano. Crianças de até 10 anos representam 62 mil das vítimas nesses quatro anos – ou seja, um terço do total. A grande maioria das vítimas de violência sexual é menina – quase 80%. Para elas, um número muito alto de casos envolve vítimas entre 10 e 14 anos de idade, sendo 13 anos a idade mais frequente. Para os meninos, o crime se concentra na infância, especialmente entre 3 e 9 anos de idade. A maioria dos casos de violência sexual contra meninas e meninos ocorre na residência da vítima e, para os casos em que há informações sobre a autoria dos crimes, 86% dos autores eram conhecidos. Os dados são do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) em relatório de 2021.

As estatísticas apontam os números de crianças e adolescentes abusados, violentados de forma silenciosa. Mas, pessoas não são números, são seres que sofrem as dores do abuso e da violência, na grande maioria das vezes realizada no âmbito da família e por pessoas de sua relação de afeto e confiança. A dor dessas crianças e adolescentes só não é maior que a dor do descrédito que faz com que muitas das pessoas sobreviventes venham a sucumbir. A dor de uma voz, quando consegue sair da boca, não ser ouvida e respeitada.

As vozes que repetem “Quem ensina sobre sexo é papai e mamãe”. “Falar sobre questão de gênero é doutrinação.” Essas trazem um mal maior.

Frases como estas tem se disseminado nas redes sociais, mas, não encontram respaldos em estudos e pesquisas e jogam contra o combate à exploração sexual infantil, aponta o Relatório elaborado pela Revista Britânica The Economist com apoio da Fundação World Childhood: a discussão sobre sexualidade e gênero aumenta a capacidade de um país de proteger suas crianças.

O Brasil vinha avançando, mesmo que devagar, e a maioria dos pais concordava com a educação sexual nas escolas, mas agora com essa desinformação sobre os Programas parece que a coisa estagnou, diz a psicóloga e doutora em educação Neide Figueiró que trabalha com formação em educação sexual para professores. Discursos sem fundamentos incutem nos pais o medo de que a escola incentivaria crianças a fazer sexo, faria apologia da homossexualidade ou pregaria valores contra princípios religiosos de algumas famílias. Mesmo assim a maioria dos brasileiros ainda é a favor da educação sexual nas escolas, apoiada por 54% da população segundo pesquisa do Datafolha de dezembro 2018.

O retrocesso diminui as chances de a escola identificar casos de abuso e exploração. Se o tema deixa de ser tratado nas escolas, há redução da percepção dos professores sobre o que está acontecendo. Os discursos enviesados afetam também os professores que ficam com medo de tratar do assunto, segundo a especialista Figueiró.

Nós precisamos conhecer quais os tipos de violência silenciosa que sofrem as crianças e adolescentes. De que maneira o abuso acontece e quem são os possíveis abusadores ou abusadoras. Estão próximos? Há um perfil dessas pessoas?

Como identificar se a criança ou adolescente está sendo vítima de abuso? Elas podem mentir em caso de abuso? Por que a criança e adolescente não fala ou pede ajuda quando está sendo vítima de abuso?

O que fazer em caso de desconfiar que uma criança ou adolescente está sofrendo abuso? Existem Redes de apoio para essas crianças e adolescentes?

É preciso pautar esse debate, nos meios espíritas e na sociedade em geral. Despertar a força coletiva no sentido de causar um desconforto social, para, assim, fomentar a elaboração de políticas públicas eficazes de prevenção. É preciso preparar pessoas para agir diante deste cenário cruel, criminoso, sombrio: famílias, escolas, grupos sociais diversos.

Educação sexual, conhecer o corpo, as descobertas, os sentimentos e sensações, preparar as crianças e adolescentes para a auto-defesa.

Estatísticas mostram que crianças que passaram por programas de educação sexual formal e planejada têm seis vezes mais ferramentas de proteção contra abuso e exploração sexual, afirma Caroline Arcari, mestre em Educação Sexual e autora do livro Pipo e Fifi sobre prevenção de violência sexual destinado às crianças a partir dos 4 anos. Segundo ela, alguns grupos argumentam que a educação sexual poderia erotizar precocemente a criança. Há uma confusão sobre o que ela trata: é aprender sobre o corpo, sobre os seus sentimentos, sobre o mundo, sobre limites e seus direitos, diz ela.

Ah, as estatísticas. Elas teimam em nos enquadrar em um padrão de ocorrência que não somos, entretanto, são subsídios para as leituras das pesquisas e estudos produzidos que auxiliam a guiar a construção de políticas públicas e redes de apoio, e, principalmente, o enfrentamento às violências cometidas. A partir do conhecimento do cenário que as estatísticas nos apontam ações como as de 18MAIO último ganham força e mais pessoas se somam a essa luta: ativistas de todo o país convocaram grito coletivo para dar basta à violência sexual contra crianças. São participantes da passeata virtual #AgoraVcSabe, Movimento encabeçado pelo Instituto Liberta, presidido por Luciana Temer. O Movimento tem como missão, por um fim ao silêncio sobre violência sexual contra crianças e adolescentes no país, diz ela.

 

São muitas as denúncias que surgem quase que diariamente e quem denuncia termina sendo uma referência, um apoio e um incentivo para que mais crianças e adolescentes falem, rompam o silêncio, como a menina do texto de Valéria Amâncio, que, pensando que estava sozinha descobriu que há outros marcados pelo sofrimento como o seu, todos com a marca da dor.

Descobriu ainda que as marcas ficam, mas, a vida pode recomeçar.

“Poderia até abrir as asas da esperança e reaprender a voar...”

 

Que sejamos cada uma e cada um de nós o abraço que acolhe, o ouvido que escuta e a voz que brada em coro: BASTA! Chega do abuso que mata lentamente...

 

Neste contexto, o Fórum de Mulheres Espíritas do IFEHP soma-se a tantos outros ativistas, Coletivos, grupos sociais, famílias, educadores, imbuídos da responsabilidade de pautar esse tema, promovendo todos os diálogos e ações necessárias ao enfrentamento dessa violência.

Nunca será demais pautar o tema do abuso sexual e dialogar com as pessoas sobre essa violência silenciosa que nos atinge. É uma questão de interesse público. É uma responsabilidade coletiva.

Precisamos dar um BASTA a essa violência silenciosa!

 

FONTE: AMÂNCIO, Valéria. Meu Corpo, Minhas Descobertas. 2012. Editora cassara.

https://g1.globo.com/sc/santa-catarina/noticia/2022/05/13/menina-que-escreveu-bilhete-relatando-abuso-sexual-em-sc-sofria-violencia-desde-o-inicio-do-ano-me-ajuda.ghtml?utm_source=whatsapp&utm_medium=share-bar-mobile&utm_campaign=materias

https://www1.folha.uol.com.br/seminariosfolha/2019/05/discussao-sobre-sexo-na-escola-aumenta-protecao-contra-abuso.shtml?utm_source=whatsapp&utm_medium=social&utm_campaign=compwa

https://instagram.com/stories/valamanciosantos/2834354864628068561?utm_source=ig_story_item_share&igshid=MDJmNzVkMjY=

 

 



[1] Integrante do Fórum de Mulheres Espíritas do IFEHP – Instituto de Filosofia Espírita Herculano Pires. @forummulheresifehp @ifehpherculanopires

 

Curso Espiritismo e Direitos Sociais - 4º Encontro

Curso Espiritismo e Direitos Sociais - 3º Encontro

Curso Espiritismo e Direitos Sociais - 2º Encontro

Curso Espiritismo e Direitos Sociais - 1º Encontro

1º Café Paralaxe - A importância do estudo das obras dos pensadores espíritas progressistas

Onde fica a certeza de que nos perdemos uns dos outros?

  Publicado no Blog Repórter Nordeste. Disponível em  https://reporternordeste.com.br/onde-fica-a-certeza-de-que-nos-perdemos-uns-dos-outros...