domingo, 5 de junho de 2022

Abuso sexual contra crianças e adolescentes: a violência silenciosa


 


Alessandra Buarque de Araújo Silva[1]


Asas de borboleta

 Era apenas uma menina que pensava que um dia criaria asas como a borboleta e voaria. Corria, pulava, sorria ... como sorria.

Acreditava que o mundo era só alegria acreditava que a maldade não existia.

Via em cada gesto apenas simpatia. Olhares ruins, pessoas que ameaçavam a inocência eram só fantasia.

Até que um dia descobriu, de uma só vez, que a dor e angústia eram mais que notícias de televisão e em sua vida tudo mudou.

O céu mudara de cor, já não via mais o seu azul radiante, mas o cinza sem brilho e calor.
A dor da lembrança doía, o corpo doía. Pensava se aquilo seria mentira, mas a verdade lhe dizia: - Aconteceu...

A sensação de estar suja lhe acompanhava noite e dia.:
Ele não deveria...Invadir assim a sua inocência... Como um simples brinquedo. Ousar fazer da menina uma boneca dilacerada.

Não conseguia mais sorrir ou cantar. Toda a sua alegria transformada em tristeza profunda. Lembrava das frases: 
- Não conte, não conte. Este é o nosso segredinho. Se você contar eu negarei e não acreditarão em você. Muitas coisas ruins vão acontecer.

Passou a andar cabisbaixa, se isolava; se alguém lhe abordava saia. Não se entrosava e sofria. A dor machucava e ela sozinha.

Muitos perguntavam o que havia, mas ela mesma não entendia, apenas lembrava e sofria.
Não dormia, sonhava com os momentos passados. Acordava em prantos e ninguém entendia. Tinha medo, muito medo.

Recordava aquelas mãos invadindo mais que seu corpo, o seu eu. Afeto e raiva se misturavam. Já não sabia o que sentir por alguém que um dia amou e fora capaz de violentar sua alma.

Quando estava só pensava, pensava... Lembrava. Um dia contou, mas não acreditaram; essa dor foi mais forte, quase sucumbiu. Não vivia, sobrevivia.

À escola ia sem ver o que se passava, como alguém cuja vida escapava pelas lembranças e pela dor.

Um dia, porém, alguém a viu, não com os olhos que se vê todos os dias, mas com os olhos de quem enxerga além. Quem lhe enxergou também acreditou na força do abraço e abraçou.

Aquele abraço tocou fundo e ela falou. Dessa vez foi diferente, a verdade apareceu. Ela que pensava que estava sozinha descobriu que há outros marcados pelo sofrimento como o seu, todos com a marca da dor.
Ela descobre ainda que as marcas ficam, mas, a vida, ah! A vida pode recomeçar. Poderia até abrir as asas da esperança e reaprender a voar.”

*Valéria Amâncio.

O texto acima, escrito pela Psicóloga e Pedagoga Valéria Amâncio nos remete ao maio laranja e a importância de falar sobre o tema “Abuso sexual contra crianças e adolescentes: a violência silenciosa”. Tema que, inclusive, a Psicóloga Valéria Amâncio abordou em live realizada no dia 25.05 deste ano como convidada do Fórum de Mulheres Espíritas do IFEHP - Instituto de Filosofia Espírita Herculano Pires, vídeo disponível no canal do youtube do IFEHP.

O dia 18 de maio de 1973 marcou para sempre a vida da família da menina Araceli. Ela tinha 08 anos quando foi raptada, drogada, estuprada, carbonizada e morta, em Vitória do Espírito Santo. Araceli poderia ser a menina do texto de Valéria Amâncio que pensava que um dia criaria asas como a borboleta e voaria. Araceli se foi, vítima de um crime brutal e o dia 18 de maio foi instituído como o dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes.

Quantas crianças e jovens sofreram e sofrem abusos e exploração sexual em nosso país? A violência sexual é um crime que acontece prioritariamente na infância e no início da adolescência. No período entre 2017 e 2020 foram registrados 179.277 casos de estupro ou estupro de vulnerável com vítimas de até 19 anos – uma média de quase 45 mil casos por ano. Crianças de até 10 anos representam 62 mil das vítimas nesses quatro anos – ou seja, um terço do total. A grande maioria das vítimas de violência sexual é menina – quase 80%. Para elas, um número muito alto de casos envolve vítimas entre 10 e 14 anos de idade, sendo 13 anos a idade mais frequente. Para os meninos, o crime se concentra na infância, especialmente entre 3 e 9 anos de idade. A maioria dos casos de violência sexual contra meninas e meninos ocorre na residência da vítima e, para os casos em que há informações sobre a autoria dos crimes, 86% dos autores eram conhecidos. Os dados são do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) em relatório de 2021.

As estatísticas apontam os números de crianças e adolescentes abusados, violentados de forma silenciosa. Mas, pessoas não são números, são seres que sofrem as dores do abuso e da violência, na grande maioria das vezes realizada no âmbito da família e por pessoas de sua relação de afeto e confiança. A dor dessas crianças e adolescentes só não é maior que a dor do descrédito que faz com que muitas das pessoas sobreviventes venham a sucumbir. A dor de uma voz, quando consegue sair da boca, não ser ouvida e respeitada.

As vozes que repetem “Quem ensina sobre sexo é papai e mamãe”. “Falar sobre questão de gênero é doutrinação.” Essas trazem um mal maior.

Frases como estas tem se disseminado nas redes sociais, mas, não encontram respaldos em estudos e pesquisas e jogam contra o combate à exploração sexual infantil, aponta o Relatório elaborado pela Revista Britânica The Economist com apoio da Fundação World Childhood: a discussão sobre sexualidade e gênero aumenta a capacidade de um país de proteger suas crianças.

O Brasil vinha avançando, mesmo que devagar, e a maioria dos pais concordava com a educação sexual nas escolas, mas agora com essa desinformação sobre os Programas parece que a coisa estagnou, diz a psicóloga e doutora em educação Neide Figueiró que trabalha com formação em educação sexual para professores. Discursos sem fundamentos incutem nos pais o medo de que a escola incentivaria crianças a fazer sexo, faria apologia da homossexualidade ou pregaria valores contra princípios religiosos de algumas famílias. Mesmo assim a maioria dos brasileiros ainda é a favor da educação sexual nas escolas, apoiada por 54% da população segundo pesquisa do Datafolha de dezembro 2018.

O retrocesso diminui as chances de a escola identificar casos de abuso e exploração. Se o tema deixa de ser tratado nas escolas, há redução da percepção dos professores sobre o que está acontecendo. Os discursos enviesados afetam também os professores que ficam com medo de tratar do assunto, segundo a especialista Figueiró.

Nós precisamos conhecer quais os tipos de violência silenciosa que sofrem as crianças e adolescentes. De que maneira o abuso acontece e quem são os possíveis abusadores ou abusadoras. Estão próximos? Há um perfil dessas pessoas?

Como identificar se a criança ou adolescente está sendo vítima de abuso? Elas podem mentir em caso de abuso? Por que a criança e adolescente não fala ou pede ajuda quando está sendo vítima de abuso?

O que fazer em caso de desconfiar que uma criança ou adolescente está sofrendo abuso? Existem Redes de apoio para essas crianças e adolescentes?

É preciso pautar esse debate, nos meios espíritas e na sociedade em geral. Despertar a força coletiva no sentido de causar um desconforto social, para, assim, fomentar a elaboração de políticas públicas eficazes de prevenção. É preciso preparar pessoas para agir diante deste cenário cruel, criminoso, sombrio: famílias, escolas, grupos sociais diversos.

Educação sexual, conhecer o corpo, as descobertas, os sentimentos e sensações, preparar as crianças e adolescentes para a auto-defesa.

Estatísticas mostram que crianças que passaram por programas de educação sexual formal e planejada têm seis vezes mais ferramentas de proteção contra abuso e exploração sexual, afirma Caroline Arcari, mestre em Educação Sexual e autora do livro Pipo e Fifi sobre prevenção de violência sexual destinado às crianças a partir dos 4 anos. Segundo ela, alguns grupos argumentam que a educação sexual poderia erotizar precocemente a criança. Há uma confusão sobre o que ela trata: é aprender sobre o corpo, sobre os seus sentimentos, sobre o mundo, sobre limites e seus direitos, diz ela.

Ah, as estatísticas. Elas teimam em nos enquadrar em um padrão de ocorrência que não somos, entretanto, são subsídios para as leituras das pesquisas e estudos produzidos que auxiliam a guiar a construção de políticas públicas e redes de apoio, e, principalmente, o enfrentamento às violências cometidas. A partir do conhecimento do cenário que as estatísticas nos apontam ações como as de 18MAIO último ganham força e mais pessoas se somam a essa luta: ativistas de todo o país convocaram grito coletivo para dar basta à violência sexual contra crianças. São participantes da passeata virtual #AgoraVcSabe, Movimento encabeçado pelo Instituto Liberta, presidido por Luciana Temer. O Movimento tem como missão, por um fim ao silêncio sobre violência sexual contra crianças e adolescentes no país, diz ela.

 

São muitas as denúncias que surgem quase que diariamente e quem denuncia termina sendo uma referência, um apoio e um incentivo para que mais crianças e adolescentes falem, rompam o silêncio, como a menina do texto de Valéria Amâncio, que, pensando que estava sozinha descobriu que há outros marcados pelo sofrimento como o seu, todos com a marca da dor.

Descobriu ainda que as marcas ficam, mas, a vida pode recomeçar.

“Poderia até abrir as asas da esperança e reaprender a voar...”

 

Que sejamos cada uma e cada um de nós o abraço que acolhe, o ouvido que escuta e a voz que brada em coro: BASTA! Chega do abuso que mata lentamente...

 

Neste contexto, o Fórum de Mulheres Espíritas do IFEHP soma-se a tantos outros ativistas, Coletivos, grupos sociais, famílias, educadores, imbuídos da responsabilidade de pautar esse tema, promovendo todos os diálogos e ações necessárias ao enfrentamento dessa violência.

Nunca será demais pautar o tema do abuso sexual e dialogar com as pessoas sobre essa violência silenciosa que nos atinge. É uma questão de interesse público. É uma responsabilidade coletiva.

Precisamos dar um BASTA a essa violência silenciosa!

 

FONTE: AMÂNCIO, Valéria. Meu Corpo, Minhas Descobertas. 2012. Editora cassara.

https://g1.globo.com/sc/santa-catarina/noticia/2022/05/13/menina-que-escreveu-bilhete-relatando-abuso-sexual-em-sc-sofria-violencia-desde-o-inicio-do-ano-me-ajuda.ghtml?utm_source=whatsapp&utm_medium=share-bar-mobile&utm_campaign=materias

https://www1.folha.uol.com.br/seminariosfolha/2019/05/discussao-sobre-sexo-na-escola-aumenta-protecao-contra-abuso.shtml?utm_source=whatsapp&utm_medium=social&utm_campaign=compwa

https://instagram.com/stories/valamanciosantos/2834354864628068561?utm_source=ig_story_item_share&igshid=MDJmNzVkMjY=

 

 



[1] Integrante do Fórum de Mulheres Espíritas do IFEHP – Instituto de Filosofia Espírita Herculano Pires. @forummulheresifehp @ifehpherculanopires

 

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