Alessandra
Buarque de Araújo Silva[1]
Asas de borboleta
“Era apenas uma menina que pensava que um dia criaria asas como a borboleta e voaria. Corria, pulava, sorria ... como sorria.
Acreditava que o mundo era só alegria acreditava que a maldade não existia.
Via em
cada gesto apenas simpatia. Olhares ruins, pessoas que ameaçavam a inocência
eram só fantasia.
Até que um dia descobriu, de uma só vez, que a dor e angústia eram mais que notícias de televisão e em sua vida tudo mudou.
O céu
mudara de cor, já não via mais o seu azul radiante, mas o cinza sem brilho e
calor.
A dor
da lembrança doía, o corpo doía. Pensava se aquilo seria mentira, mas a verdade
lhe dizia: - Aconteceu...
A sensação
de estar suja lhe acompanhava noite e dia.:
Ele
não deveria...Invadir assim a sua inocência... Como um simples brinquedo. Ousar
fazer da menina uma boneca dilacerada.
Não
conseguia mais sorrir ou cantar. Toda a sua alegria transformada em tristeza
profunda. Lembrava das frases:
- Não
conte, não conte. Este é o nosso segredinho. Se você contar eu negarei e não
acreditarão em você. Muitas coisas ruins vão acontecer.
Passou a andar cabisbaixa, se isolava; se alguém lhe abordava saia. Não se entrosava e sofria. A dor machucava e ela sozinha.
Muitos
perguntavam o que havia, mas ela mesma não entendia, apenas lembrava e sofria.
Não
dormia, sonhava com os momentos passados. Acordava em prantos e ninguém
entendia. Tinha medo, muito medo.
Recordava aquelas mãos invadindo mais que seu corpo, o seu eu. Afeto e raiva se misturavam. Já não sabia o que sentir por alguém que um dia amou e fora capaz de violentar sua alma.
Quando estava só pensava, pensava... Lembrava. Um dia contou, mas não acreditaram; essa dor foi mais forte, quase sucumbiu. Não vivia, sobrevivia.
À escola ia sem ver o que se passava, como alguém cuja vida escapava pelas lembranças e pela dor.
Um dia,
porém, alguém a viu, não com os olhos que se vê todos os dias, mas com os olhos
de quem enxerga além. Quem lhe enxergou também acreditou na força do abraço e
abraçou.
Aquele
abraço tocou fundo e ela falou. Dessa vez foi diferente, a verdade apareceu.
Ela que pensava que estava sozinha descobriu que há outros marcados pelo
sofrimento como o seu, todos com a marca da dor.
Ela descobre
ainda que as marcas ficam, mas, a vida, ah! A vida pode recomeçar. Poderia até
abrir as asas da esperança e reaprender a voar.”
*Valéria
Amâncio.
O
texto acima, escrito pela Psicóloga e Pedagoga Valéria Amâncio nos remete ao maio laranja e a importância de falar sobre o tema “Abuso sexual
contra crianças e adolescentes: a violência silenciosa”. Tema que, inclusive, a
Psicóloga Valéria Amâncio abordou em live realizada no dia 25.05 deste
ano como convidada do Fórum de Mulheres Espíritas do IFEHP - Instituto de
Filosofia Espírita Herculano Pires, vídeo disponível no canal do youtube
do IFEHP.
O
dia 18 de maio de 1973 marcou para sempre a vida da família da menina Araceli.
Ela tinha 08 anos quando foi raptada, drogada, estuprada, carbonizada e morta,
em Vitória do Espírito Santo. Araceli poderia ser a menina do texto de Valéria
Amâncio que pensava que um dia criaria asas como a borboleta e voaria. Araceli
se foi, vítima de um crime brutal e o dia 18 de maio foi instituído como o dia
Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes.
Quantas
crianças e jovens sofreram e sofrem abusos e exploração sexual em nosso país? A
violência sexual é um crime que acontece prioritariamente na infância e no
início da adolescência. No período entre 2017 e 2020 foram registrados 179.277
casos de estupro ou estupro de vulnerável com vítimas de até 19 anos – uma
média de quase 45 mil casos por ano. Crianças de até 10 anos representam 62 mil
das vítimas nesses quatro anos – ou seja, um terço do total. A grande maioria
das vítimas de violência sexual é menina – quase 80%. Para elas, um número
muito alto de casos envolve vítimas entre 10 e 14 anos de idade, sendo 13 anos
a idade mais frequente. Para os meninos, o crime se concentra na infância,
especialmente entre 3 e 9 anos de idade. A maioria dos casos de violência
sexual contra meninas e meninos ocorre na residência da vítima e, para os casos
em que há informações sobre a autoria dos crimes, 86% dos autores eram
conhecidos. Os dados são do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) em
relatório de 2021.
As
estatísticas apontam os números de crianças e adolescentes abusados,
violentados de forma silenciosa. Mas, pessoas não são números, são seres que
sofrem as dores do abuso e da violência, na grande maioria das vezes realizada
no âmbito da família e por pessoas de sua relação de afeto e confiança. A dor
dessas crianças e adolescentes só não é maior que a dor do descrédito que faz
com que muitas das pessoas sobreviventes venham a sucumbir. A dor de uma voz,
quando consegue sair da boca, não ser ouvida e respeitada.
As
vozes que repetem “Quem ensina
sobre sexo é papai e mamãe”. “Falar sobre questão de gênero é doutrinação.” Essas
trazem um mal maior.
Frases
como estas tem se disseminado nas redes sociais, mas, não encontram respaldos
em estudos e pesquisas e jogam contra o combate à exploração sexual infantil,
aponta o Relatório elaborado pela Revista Britânica The Economist com apoio da
Fundação World Childhood: a discussão sobre sexualidade e gênero aumenta a
capacidade de um país de proteger suas crianças.
O
Brasil vinha avançando, mesmo que devagar, e a maioria dos pais concordava com
a educação sexual nas escolas, mas agora com essa desinformação sobre os
Programas parece que a coisa estagnou, diz a psicóloga e doutora em educação
Neide Figueiró que trabalha com formação em educação sexual para professores.
Discursos sem fundamentos incutem nos pais o medo de que a escola incentivaria
crianças a fazer sexo, faria apologia da homossexualidade ou pregaria valores
contra princípios religiosos de algumas famílias. Mesmo assim a maioria dos
brasileiros ainda é a favor da educação sexual nas escolas, apoiada por 54% da
população segundo pesquisa do Datafolha de dezembro 2018.
O
retrocesso diminui as chances de a escola identificar casos de abuso e
exploração. Se o tema deixa de ser tratado nas escolas, há redução da percepção
dos professores sobre o que está acontecendo. Os discursos enviesados afetam
também os professores que ficam com medo de tratar do assunto, segundo a
especialista Figueiró.
Nós precisamos conhecer quais os tipos de violência
silenciosa que sofrem as crianças e adolescentes. De que maneira o abuso
acontece e quem são os possíveis abusadores ou abusadoras. Estão próximos? Há
um perfil dessas pessoas?
Como
identificar se a criança ou adolescente está sendo vítima de abuso? Elas podem
mentir em caso de abuso? Por que a criança e adolescente não fala ou pede ajuda
quando está sendo vítima de abuso?
O que
fazer em caso de desconfiar que uma criança ou adolescente está sofrendo abuso?
Existem Redes de apoio para essas crianças e adolescentes?
É
preciso pautar esse debate, nos meios espíritas e na sociedade em geral.
Despertar a força coletiva no sentido de causar um desconforto social, para,
assim, fomentar a elaboração de políticas públicas eficazes de prevenção. É
preciso preparar pessoas para agir diante deste cenário cruel, criminoso,
sombrio: famílias, escolas, grupos sociais diversos.
Educação
sexual, conhecer o corpo, as descobertas, os sentimentos e sensações, preparar
as crianças e adolescentes para a auto-defesa.
Estatísticas
mostram que crianças que passaram por programas de educação sexual formal e
planejada têm seis vezes mais ferramentas de proteção contra abuso e exploração
sexual, afirma Caroline Arcari, mestre em Educação Sexual e autora do livro
Pipo e Fifi sobre prevenção de violência sexual destinado às crianças a partir
dos 4 anos. Segundo ela, alguns grupos argumentam que a educação sexual poderia
erotizar precocemente a criança. Há uma confusão sobre o que ela trata: é
aprender sobre o corpo, sobre os seus sentimentos, sobre o mundo, sobre limites
e seus direitos, diz ela.
Ah, as estatísticas. Elas teimam em nos enquadrar em um padrão de
ocorrência que não somos, entretanto, são subsídios para as leituras das
pesquisas e estudos produzidos que auxiliam a guiar a construção de políticas
públicas e redes de apoio, e, principalmente, o enfrentamento às violências
cometidas. A partir do conhecimento do cenário que as estatísticas nos apontam
ações como as de 18MAIO último ganham força e mais pessoas se somam a essa
luta: ativistas de todo o país convocaram grito coletivo para dar basta à
violência sexual contra crianças. São participantes da passeata virtual
#AgoraVcSabe, Movimento encabeçado pelo Instituto Liberta, presidido por Luciana
Temer. O Movimento tem como missão, por um fim ao silêncio sobre violência
sexual contra crianças e adolescentes no país, diz ela.
São muitas as denúncias que surgem quase que diariamente e quem
denuncia termina sendo uma referência, um apoio e um incentivo para que mais
crianças e adolescentes falem, rompam o silêncio, como a menina do texto de
Valéria Amâncio, que, pensando que estava sozinha
descobriu que há outros marcados pelo sofrimento como o seu, todos com a marca
da dor.
Descobriu ainda que as marcas ficam, mas, a vida pode recomeçar.
“Poderia até abrir as asas da esperança e reaprender a voar...”
Que sejamos cada uma e cada um de nós o abraço que acolhe, o ouvido
que escuta e a voz que brada em coro: BASTA! Chega do abuso que mata
lentamente...
Neste contexto, o Fórum de Mulheres Espíritas do IFEHP soma-se a
tantos outros ativistas, Coletivos, grupos sociais, famílias, educadores,
imbuídos da responsabilidade de pautar esse tema, promovendo todos os diálogos
e ações necessárias ao enfrentamento dessa violência.
Nunca será demais pautar o tema do abuso sexual e
dialogar com as pessoas sobre essa violência silenciosa que nos atinge. É uma
questão de interesse público. É uma responsabilidade coletiva.
Precisamos dar um BASTA a essa violência
silenciosa!
FONTE:
AMÂNCIO, Valéria. Meu Corpo, Minhas Descobertas. 2012. Editora cassara.
[1]
Integrante do Fórum de Mulheres Espíritas do IFEHP
– Instituto de Filosofia Espírita Herculano Pires. @forummulheresifehp
@ifehpherculanopires

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